quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O Gari

Estava indo para o trabalho e vi alguns funcionários da Comlurb cortando a grama de uma rua perto da minha casa. Olhei atentamente, pois como a rua beira uma chácara, algum bicho poderia estar escondido ali, assustado com o barulho, e eu queria evitar ao máximo que algum se ferisse. Esperava ver um gato acuado ou um filhote de passarinho perdido, no máximo um sapo surdo... Em vez disso surge, do meio do matagal, um cachorrinho minúsculo que, nem me perguntem como, já sabia andar!

O nanico não estava perdido ou assustado. Andava feliz com o rabinho levantado, com rumo certo: foi direto aos pés de um lixeiro que varria ali. Ele saltitava e lambiscava as botas do gari, que se derretia todo: "como é que eu vou deixar ele aqui? Como é que eu vou fazer isso?", perguntava ao colega como quem pergunta à própria consciência.
O colega ria da cena, sem nada dizer.

Fui seguindo a rua, me aproximando, e falei: "e agora? Tadinho!". Não queria o deixar ali também, mas achei que näo precisava dizer o óbvio "ele gostou de vc", pois ambos haviam se apaixonado! O cachorrinho era uma fofura, inocente, destemido e cabia no bolso. Ele já havia escolhido seu novo dono e estava determinado, jogando todo seu charme pra cima dele! Eu poderia ser a porta-voz do pequeno no mundo dos humanos, mas com cuidado, para não ouvir do lixeiro: "eu näo posso! Eu to no meio do trabalho, leva você!", e pôr todo o futuro daquele cachorro em risco.

Não disse mais nada, admirei enquanto pude, sorrindo feliz.
Mas ainda deu pra ouvir uma frase, dita pelo mesmo lixeiro, que me deixou cheia de esperança:
- Olha o Gari! O Gari! Como é que eu vou te deixar aqui?
Ele tinha dado um nome ao cachorro. E estava falando com ele! Sem saber, respondeu à própria pergunta: não deixaria.